Zé Dadá era afamado em briga. Não perdia uma. Era murro daqui, chute
dali, cabeçada acolá, sobrava rabo de arraia pra todo lado. Pobre adversário,
se fosse esperto, caía logo para não apanhar mais. Um olho roxo, um dente
quebrado, uma costela partida, tudo era troféu de guerra, mesmo que perdida.
Afinal, com Zé Dadá, ninguém podia.
De boca em boca, os feitos do brigão logo chegaram aos ouvidos de toda a
Caxias, terra de Gonçalves Dias. Não demorou, até a polícia evitava cruzar o
caminho do Zé Dadá. Isso porque o povo não respeita policial que toma tapa na
cara.
A despeito de tamanho temor, havia um rapazola franzino chamado
Raimundo, que dizia não tremer que nem vara verde como tantos ali. Ele levantou
o braço e, com a voz mais apagada do que a própria covardia, disse: "Se
ninguém tem coragem de enfrentar o Zé Dadá, eu enfrento!" Pra quê? Isso
foi cair justamente nos ouvidos do Zé Dadá, que logo quis saber quem era o tal
atrevido.
A notícia correu toda a cidade, especialmente entre os alunos do Colégio
Caxiense, onde o Raimundo penava para passar em matemática. Diante de tantas
contas complicadas, chegou a desejar que a luta contra o brigão se desse o mais
rápido possível. Antes a cabeça rachada que quebrar a cuca com tantos
números.
A luta foi marcada. Dali a três dias, lá no Largo de Santa Luzia, que
ficava atrás do Caxiense. Em vez de futebol, o lugar seria palco da batalha
mais esperada desde que Lampião passou pelo município, fato este que jamais
aconteceu. Entre lendas e verdades, o tempo voou, especialmente para o pequeno
Raimundo, que já pensava em se escafeder pelo mato, tamanho seu arrependimento
por sua irracional impulsividade. Por que diacho ele havia erguido o braço,
quando ninguém mais esperava por nada além de um ato de contida covardia?
O local estava abarrotado, saindo gente pelo ladrão. Até o padre, dizem,
teria feito sua fezinha. Obviamente que apostara toda a oferenda do mês no Zé
Dadá. Afinal, não dá para brincar com o dinheiro divino sem ter certeza do
resultado.
De um lado, surgiu o grande Zé Dadá. Perto de 1,80 m, quase 80 kg de puro
músculo. Já sem camisa, desfilou no círculo de entusiasmada plateia. Ficou ali
por quase cinco minutos à espera do desafiante, que ainda pensava em fugir. No
entanto, acabou sendo empurrado para o meio da arena.
Raimundo suava frio, apesar dos quase 40 graus. As mãos tremiam,
enquanto os dedos tentavam desabotoar a camisa branquinha. Ele não queria
sujá-la. Se chegasse em casa com a roupa encardida, teria que enfrentar a fúria
de sua mãe. Tomou coragem, apanharia do Zé Dadá, mas manteria o couro livre do
açoite certeiro da genitora.
Apesar de franco favorito, Zé Dadá não estava acostumado a enfrentar um
adversário tão atrevido. Como é que aquele magricela teve coragem de
desafiá-lo? Seria ele um lutador experiente? Saberia dar golpes ainda desconhecidos
pelo campeão dos campeões de Caxias? Ou seria apenas mais um pobre coitado
morto de fome? Olha essas costelas finas que nem gravetos secos. Seja como for,
tais dúvidas pairavam pela mente ligeira de Zé Dadá.
O público gritava. Todos queriam ver o sangue jorrar longe. Os oponentes
se estudavam, a cautela tomava cada atitude daqueles dois, até que, num gesto
ligeiro como bote de louva-deus, Zé Dadá acertou em cheio a fuça do pobre
Raimundo. Caiu de bunda! Pensou em revidar, mas a prudência falou mais alto. Zé
Dadá partiu para cima com o intuito de dar cabo do adversário, mas logo surgiu
a turma do deixa-disso, que apartou a contenda. Foi a deixa para que Raimundo
abrisse uma brecha no meio da multidão e se evadisse do local.
O derrotado ficou três dias com o nariz inchado. Temendo que sua mãe
descobrisse a surra que havia levado, o rapaz passou todo esse tempo evitando
encará-la. Não queria apanhar outra vez. Conseguiu, não se sabe como. Talvez a
mãe já soubesse de tudo e, piedosa como ela só, não quis causar mais sofrimento
ao filho. Nenhuma palavra sobre o acontecido.
Após quase uma semana da surra em praça pública, Raimundo desejou ser
amigo do seu algoz. Encontrou o grandalhão, que repousava debaixo de uma
mangueira. Trocaram poucas palavras, o suficiente para que as coisas se
acertassem. Satisfeito com a audácia do adversário, o campeão aceitou quase que
de pronto tal proposta. Tornaram-se amigos ou, ao menos, mantiveram uma
diplomática relação de respeito mútuo pelos anos seguintes.
O avô, assim que terminou a história, percebeu que o neto, totalmente
encantado, o encarava. Os dois sorriram, enquanto o aparelho celular parecia
ter sido esquecido no canto.
— Vô, que coincidência!
— O quê?
— O Raimundo tem o mesmo nome do senhor.
- Nota de esclarecimento: O conto "Zé Dadá, o invencível" foi publicado pelo Notibras no dia 30/8/2023.
- https://www.notibras.com/site/raimundo-atrevido-deixa-briga-com-nariz-quebrado/
- O conto "Zé Dadá, o invencível" faz parte da 43ª edição da Revista LiteraLivre.
- https://drive.google.com/file/d/1Pjsw0lKy356144o1kqxLX8jVFItxuQNo/view
- https://www.calameo.com/read/005409554061acc809479
- O conto "Zé Dadá, o invencível" faz parte do livro "EDUARDO MARTÍNEZ E OUTROS AUTORES Projeto Literatura na escola PROJETO LITARATURA NA ESCOLA 1".
- https://www.calameo.com/books/006803069f3f5db711eee
- O conto "Zé Dadá, o invencível" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 9/3/2026.
- https://jornalrol.com.br/?p=78988


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